quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

PROPOSTA PARA INSTITUIÇÃO DO PRESBITÉRIO DA IBAB PR ED RENE KIVITZ



1. Justificativa: razões para instituir um Presbitério

·        Porque é bíblico

As Igrejas do Novo Testamento eram pastoreadas por um grupo de homens fiéis e idôneos, que atuavam em harmonia, onde cada um contribuía para o todo à luz de seus dons espirituais e vocações pessoais.

·        Porque é eficaz

Calvino disse que “assim como nenhum homem é bom o bastante para governar a Igreja, também nenhuma multidão é qualificada o suficiente para tomar decisões críticas que afetam a vida da Igreja”. O Presbitério evita a tirania do indivíduo e a desordem das massas. Registre-se que a afirmação “a multidão não é qualificada” não diz respeito às prerrogativas de competência e autoridade espiritual, mas sim de eficácia operacional, por questões óbvias como, por exemplo, a distância da dinâmica operacional, a ignorância a respeito dos processos, a escassez ou incompletude das informações, que prejudicam decisões eficazes. Além disso, o contexto urbano contemporâneo e a realidade social e cultural em que vivemos exigem estruturas ágeis, funcionais e enxutas, que permitam decisões e ações
desburocratizadas.

·        Porque é seguro

Assim como a segurança de um cristão está em sua integração na rede de relacionamentos de mutualidade, também a liderança de uma Igreja deve cultivar a vivência dos mandamentos recíprocos, para que cada presbítero seja também pastoreado por seus pares, e a Igreja como um todo esteja sob o cuidado de líderes que acreditam que na multidão de conselheiros há sabedoria e segurança (Provérbios 11.14; 15.22).

·         Porque é eficiente

A pluralidade de líderes possibilita não apenas o acompanhamento mais próximo das diversas atividades, ministérios, e processos da Igreja, como também permite que cada um dos ministros assuma apenas as responsabilidades compatíveis com suas competências.


·        Porque é abrangente

A multiplicidade de ministros possibilita a diversidade de ministérios e ênfases. Um presbítero pode ter a visão correta, mas jamais terá a visão completa.

·         Porque é legítimo e moral

A afirmação de que o sistema de governo batista é congregacional democrático equivale muito mais à democracia representativa, onde um grupo governa por delegação da assembléia, do que à democracia plena, onde todos deliberam a respeito de tudo. Explicitar a instituição do presbitério é mais legítimo e moral.

2. O conceito de presbitério

O Senhor Jesus Cristo é o Supremo Pastor (Hebreus 13.20; 1Pedro 4.1-4) a quem Deus outorgou toda a autoridade e poder, colocando todas as coisas debaixo dos seus pés, e para ser cabeça de todas as coisas o constituiu cabeça da Igreja, que é o seu corpo (Efésios 1.18-23).

A doutrina do sacerdócio universal de todos os cristãos ensina que todos os cristãos possuem a mesma condição diante de Deus, têm livre acesso a Deus através de Jesus Cristo, e estão indistintamente
autorizados a representar Deus no mundo
(1Pedro 2.9,10; Efésios 4.1-16; 1Coríntios 12.4-7; 2Coríntios 5.20).

O Senhor Jesus Cristo governa e lidera a Igreja através de homens e mulheres separados pelo Espírito Santo e reconhecidos e autorizados pela Igreja (Atos 20.28; 14.23), qualificados segundo o padrão bíblico (1Timóteo 3.1-13; Tito 1.5-9), e dedicados ao serviço de acordo com seus dons espirituais e ministérios pessoais (Atos 13.1; Romanos 12.5-8; 1Coríntios 12-14; Efésios 4.11; 1Tessalonicenses 5.12-14; 1Timóteo
5.17; 1Pedro 4.10,11). O termo bíblico usado para identificar estes líderes espirituais é “presbítero” (Atos 15.2,4, 6,22; 16.4).


O modelo neo testamentário de gestão eclesiástica, portanto, implica a eleição congregacional de presbíteros. As Igrejas neotestamentárias desenvolviam seus ministérios através de todos os cristãos, mediante visão, supervisão e capacitação de presbíteros (Atos 14.23; 15.6; 20.17; Efésios 4.11; 1Tessalonicenses 5.12,13; 1Timóteo 5.17; 1Pedro 5.1; Romanos 16.1; Filipenses 1.1; 1Timóteo 3.8).

3. As atribuições do presbitério

Os presbíteros exercem a função de bispos (Atos 20.28), isto é, exercem supervisão sobre o rebanho. Os presbíteros devem ir adiante do rebanho, indicando o caminho, quer na dimensão pessoal, zelando para que cada cristão viva de modo digno de sua vocação (Efésios 4.1), quer na dimensão comunitária, zelando pelo todo da vida da
Igreja enquanto cumpre a missão que recebeu do Senhor Jesus (Mateus 20.18-20).

O Presbitério possui as seguintes atribuições:

·        Presidência

O Presbitério deve zelar pela  visão, missão, valores e crenças da Igreja, oferecer direcionamento bíblico e estratégico para os ministérios, bem como prover que a dinâmica das atividades ministeriais da Igreja seja bem administrada e gerenciada (1Tessalonicenses 5.12-14; 1Timóteo 3.5).


Entregar ao Presbitério a prerrogativa da presidência da Igreja equivale dizer que:

(1)  o Presbitério é a Igreja no intervalo de suas Assembléias.

(2)  o Presbitério é, abaixo da Assembléia, o fórum de maior autoridade da Igreja, e suas deliberações só podem ser revogadas pela própria Assembléia.


(3)  o Presbitério responde por toda a estrutura operacional da Igreja, tanto ministerial quanto administrativa.

·         Pastoreio

Compete ao Presbitério viabilizar o ministério pastoral da Igreja, notadamente através da rede de relacionamentos de mutualidade e prática dos mandamentos recíprocos (1Tessolonicenses 5.14; “uns aos outros”), zelando para que todos e cada um dos membros e freqüentadores da Igreja recebam acompanhamento pastoral adequado (Atos 20.28-32, 1Pedro 5.1).

·         Palavra

Cabe ao Presbitério prover ao rebanho ensino bíblico preciso e criterioso, zelando para que a Igreja permaneça no verdadeiro caminho bíblico da sã doutrina. Nesse sentido, o Presbitério funciona como matriz teológica e responde pela integridade doutrinária da Igreja. (Atos 6.2, 1Timóteo 5.17).

Definir “Presidência, Pastoreio e Palavra” como atribuições do Presbitério não significa que estas são funções exclusivas dos Presbíteros, mas que compete ao Presbitério prover para estas necessidades da igreja local.

4. As qualificações dos presbíteros

·         Caráter irrepreensível

Os presbíteros devem ser cristãos de boa reputação, inclusive entre “os de fora”, isto é, aqueles que não pertencem à Igreja. (Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9);


·         Competências ministeriais

Os presbíteros devem servir à luz dos dons espirituais e demais capacitações necessárias ao exercício de suas atribuições específicas (Romanos 12.5-8, 1Coríntios 12.7-11, 28-30; Efésios 4.11; 1Pedro 4.10,11);

·         Vocação do Espírito Santo

Os presbíteros devem ter profunda convicção que foi o Espírito Santo quem os constituiu bispos (Atos 6.3; 14.23; 20.28; 1Timóteo 3.10).


·        Credibilidade

Os presbíteros devem ter o reconhecimento da Igreja local, isto é, devem ser acatados naturalmente no exercício de sua autoridade (1Tessalonicenses 2.10; 1Timóteo 4.12)


·         Experiência cristã

A palavra “presbítero” significa “ancião”, contrário de neófito, e por estas razões são “guias do rebanho” (1Timóteo 3.6; 5.22; Hebreus 13.7);

·        Maturidade espiritual

O ministério dos presbíteros deve ser prioritariamente associado ao ensino da Palavra de Deus e à oração, e não às funções administrativas e gerenciais (1Coríntios 2.14-3.3; Hebreus 13.7);

·        Compromisso de cuidado do rebanho

Os presbíteros “velam pelas almas dos cristãos”, sabendo que delas prestarão contas a Deus (Hebreus 13.17).

5. A composição do presbitério

Quem pode fazer parte do presbitério? Esta pergunta suscita grande discussão, especialmente a respeito de alguns temas específicos onde há maior controvérsia. A respeito destes temas, assumimos, provisoriamente as seguintes posições.

·         Título e função

O Presbitério não é a soma de todos os pastores ou pessoas que desenvolvem ministérios identificados com o que hoje chamamos
“ministério dos pastores”. O Presbitério é essencialmente uma instância de autoridade, um órgão governamental, assim como a Assembléia.

O exercício das funções pastorais não implica necessariamente que aqueles que as exercem sejam presbíteros ou membros do Presbitério. Há distinção entre o exercício de dons chamados pastorais e a participação no Presbitério. Uma coisa é a função pastoral, outra coisa é integrar o grupo que recebeu, da própria Igreja, através de sua Assembléia, autoridade sobre o todo da Igreja.

·        Participação das mulheres

Deus criou homem e mulher à sua imagem e semelhança (Gênesis 1.27) e delegou a ambos a responsabilidade e autoridade para criar filhos e administrar a criação (Gênesis 1.26-28).

As divisões e hierarquias entre sexos e raças não fazem parte do propósito original de Deus, e, portanto, não devem ser toleradas na vida da Igreja, onde todos somos um em Cristo. No corpo de Cristo não há distinção entre judeu e gentio, servo e livre, macho e fêmea.
Em outras palavras, no corpo de Cristo não há lugar para racismo, classismo e machismo (Gálatas 3.28).


Além disso, o derramamento do Espírito Santo no Pentecoste foi sobre “toda a carne” e inclui “filhos e filhas, servos e servas, jovens e velhos”.(Atos 2.16-21).

As recomendações bíblicas a respeito do silêncio da mulher e as restrições para que mulheres não exerçam autoridade na comunidade cristã (1Coríntios 11.2-16; 1Timóteo 2.9-15) estão condicionadas cultural, social e historicamente, e devem ser interpretadas a partir das afirmações que indicam princípios universais, como por exemplo “nem o homem é independente da mulher, nem a mulher do homem, pois assim como a mulher provém do homem, também o homem é nascido da mulher” (1Coríntios 11.11,12).

Registre-se ainda que a Bíblia não ensina a autoridade do homem sobre a mulher, mas sim a autoridade do marido sobre a esposa, e ainda assim no contexto da submissão mútua (Efésios 5.21-33).
A autoridade sobre a Igreja não reside no presbítero, mas no Presbitério, de modo que é perfeitamente razoável que mulheres integrem o fórum de autoridade sobre a Igreja, sem qualquer prejuízo de suas relações conjugais e familiares.
Mulheres que não vivam a sujeição aos maridos estão desqualificadas para o presbiterato, assim como homens que não governam bem suas próprias casas (1Timóteo 3.4,5).

Existe suficiente representatividade de intérpretes bíblicos que defendem a participação de mulheres no Presbitério. Este assunto, portanto, não é questão doutrinária que implique heresia, devendo a comunidade cristã local decidir a composição do Presbitério mais conveniente e eficaz, de acordo com seu contexto particular, social, cultural e histórico.

·         Maridos de uma só mulher

Esta recomendação bíblica (1Timóteo 3.2) alude não apenas ao divórcio como também principalmente à poligamia. Isto é, naquela sociedade que vivia a transição da poligamia para a monogamia, os presbíteros deveriam ser necessariamente monogâmicos, ainda que a poligamia fosse tolerada na Igreja por questões culturais, sociais e históricas.

O divórcio, ainda que não desejado idealmente por Deus, é uma concessão que permite pessoas reconstruírem suas vidas sob a misericórdia e graça de Deus (Mateus 19.3-12). Entretanto, uma vez que se exige do presbítero “que governe bem sua própria casa” 1Timóteo 3.4,5), a maioria dos comentaristas compreende esta expressão como orientação para que os presbíteros sejam homens “casados apenas uma vez”.

Na época dos apóstolos a poligamia era socialmente aceita, mas a participação no presbitério exigia a monogamia. A razão para tal exigência era explicitar e reforçar o propósito de Deus para a vida em família. Fazendo uso deste precedente, mesmo sabendo que em nossos dias o divórcio e o novo casamento são socialmente aceitos, nos sentimos em liberdade para não incluir cristãos divorciados e ou novamente casados no Presbitério.


·         Tenha seus filhos em sujeição

Esta recomendação bíblica (1Timóteo 3.4; Tito 1.6) é geralmente compreendida como afirmativa de que somente pode ser presbítero aquele cujos filhos sejam convertidos. A palavra usada para “crentes” em Tito 1.6, entretanto, significa “fiel” ou “digno de confiança”, como em 1Timóteo 1.12,15; 3.1; 4.9; 2Timóteo 2.11; 2.13; Tito 1.9; 3.8, onde a mesma palavra foi usada.

Nesse caso, o que se exige dos presbíteros é que seus filhos vivam de maneira ordeira, de modo a não causarem escândalo para o evangelho, notadamente enquanto vivem no ambiente familiar que pretende se estabelecer como modelo para demais famílias.

Recomendamos aos presbíteros o zelo e cuidado de suas respectivas famílias, licenciando-se do Presbitério, sem prejuízo do exercício de seus dons espirituais e ministérios pessoais, quando for necessária dedicação prioritária ao pastoreio de suas próprias crises e dificuldades familiares.

6. A relação igreja-assembléia-presbitério

6.1.       A distinção entre a igreja e a assembléia

A Assembléia é o fórum representativo e deliberativo da Igreja, o instrumento de expressão dos membros da Igreja. A Igreja é a comunidade dos cristãos, enquanto a Assembléia é a reunião dos membros da comunidade que comparecem para deliberar em resposta
a uma convocação.

6.2.       As atribuições da assembléia

Considerando que o fórum máximo de autoridade da Igreja é a Assembléia, compete à Assembléia da Igreja:

·        Constituir o Presbitério

Todos os presbíteros devem ser homologados pela Assembléia da Igreja (Atos 14.21-23).

·        Pronunciar-se atendendo convocação do Presbitério

O Presbitério pode e deve convocar a Assembléia sempre que julgar necessário.

·         Cumprir disposições previstas no Estatuto da Igreja

·         Aprovar o planejamento e o orçamento anual da Igreja e deliberar a respeito do relatório do período.

·         Arbitrar eventual divisão no Presbitério

Quando o Presbitério não está em unidade, é a Assembléia quem detém a prerrogativa da palavra final. No sistema episcopal, a prerrogativa está nas mãos do bispo. No sistema Erastiano a prerrogativa está nas mãos do Estado. No sistema congregacional, a
prerrogativa está nas mãos da Assembléia.

·         Disciplinar os presbíteros e/ou o Presbitério

Havendo falha explícita do Presbitério em tratar questões morais ou doutrinárias, compete à Assembléia o exercício da disciplina dos os presbíteros e/ou o Presbitério (1Timóteo 5.19-25).

6.3.       O relacionamento entre a igreja e seu presbitério e seus presbíteros

O Novo Testamento ensina que a Igreja deve cultivar as seguintes atitudes em relação aos presbíteros/Presbitério:

·         acatar com apreço (1Tessalonicenses 5.12);

·        obedecer (Hebreus 13.17; 1Pedro 5.5);

·        honrar (1Tessalonicenses 5.13; 1Timóteo 5.17);

·        imitar (1Timóteo 4.12; Hebreus 13.7; 1Pedro 5.3);

·        julgar (Atos 17.11; 1Timóteo 5.19,20);

·        disciplinar (1Timóteo 5.20-22; Tiago 3.1);


Conclusão

O processo de implementação do Presbitério deve ser encaminhado a uma Comissão especial nomeada pela Diretoria e homologada pela Assembléia da Igreja. O Presbitério, uma vez constituído, promoverá as necessárias adequações da estrutura organizacional e operacional, bem como dos Estatutos e Regimento Interno da Igreja.


Documento encaminhado à Assembléia Geral Extraordinária da Igreja Batista de Água Branca em dezembro de 2000. Apresentado à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil – São Paulo, em junho de 2004. Pastor Ed René Kivitz.


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